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10 de agosto de 2011

Não sei se ele ou eu, ou os dois

Baseado em frases "entre-aspas" de Caio Fernando Abreu.


"Podia ser só amizade, paixão, carinho, admiração, respeito, ternura, tesão. Com tantos sentimentos arrumados cuidadosamente na prateleira de cima, tinha de ser justo amor, meu Deus?"


De repente a gente se vê num outro planeta, numa galáxia qualquer, perdido mesmo. A droga do amor é uma droga mesmo. Como pode uma coisa ser tão confusa, tão estúpida, tão incompreensível, e ainda assim ser a melhor coisa do mundo?
Eu tinha tanta coisa pra dizer, aquelas coisas tão importantes de se dizer que a atitude mais sensata é calar a boca, deixar caladas. Porque para uma coisa tão importante, nunca se sabe como essas coisas serão ditas, muito menos como serão ouvidas.

"Nunca, jamais diga o que sente. Por mais que doa, por mais que te faça feliz. Quando sentir algo muito forte, peça um drink."

Mas eu e minhas urgências sentimentais acabamos juntos despejando tudo em cima de você. Exatamente como estou fazendo agora, de novo.
Noutros tempos eu diria que fiquei com raiva. Mas não é raiva, dessa vez não é raiva. É mágoa, é dor, insegurança, medo, sei não. Talvez um pouco de tudo isso. Quem sabe nada.
Penso que, quando estivermos todos prontos, eu, você, o mundo, nos encontraríamos sentados num bar, ocasionalmente. Ou numa fila de banco. Você riria da minha cara agora, e diria que não acreditaria. Diria que eu sou infantil. Que essas coisas não existem. Você sempre foi tão cético...

"Tenho medo de já ter perdido muito tempo. Tenho medo que seja cada vez mais difícil. Tenho medo de endurecer, de me fechar, de me encarapaçar dentro de uma solidão-escudo"

Eles me pegaram, me vendaram, me cegaram, me rotularam, modularam, jogaram mil complexos em cima de mim, um milhão e meio de paranóias, e só eu sei o trabalho de limpar todo esse excesso. Hoje sou excesso. Mas sei que na verdade não passo de arestas. Arestas bem pequenas, aparadas. Mas nem por ser aresta sou simples. Sou aresta agrupada em caleidoscópio, e caledoscópios não são coisas simples. Mas são coisasfascinantes, se olhadas com atenção. Acontece que tem muita coisa no meio do caminho e é muito fácil se perder. Entre o momento de "ainda não estamos prontos" e "nossa hora chegou" são necessários cruzar muitos caminhos perigosos, e se perder é bem mais fácil que se achar.

Aceitei tanto desgosto na vida, sempre de pé, sempre aqui. Nunca fugi. Quase nunca, na verdade, mas quando fugi, sempre voltei. Nunca me esquivei do que chamei de amor, de onde eu quis colocar meu coração. E assumo as consequências das minhas decisões. Como estou e como sou é muito culpa minha,  só minha, pelas decisões que tomei. Pelas vezes que fiquei. Pelas vezes que fui. Eu só juro que não vi que isso tudo matava. E morri, no fim. E o pior é que ando zumbi na rua e ninguém percebe que estou morto, mortinho. É duro manter essa aparência. porque no fim não passa de mais de uma de minhas máscaras de como ser the perfect girl.

"Eu sei que dói. É horrível. Eu sei que parece que você não vai aguentar, mas aguenta. Sei que parece que vai explodir, mas não explode. Sei que dá vontade de abrir um zíper nas costas e sair do corpo porque dentro da gente, nesse momento, não é um bom lugar para se estar."

Cansada disso. Mas não consigo me desprender. A pior dependência está longe de ser a química. Coitados dos viciados emocionais. Pra eles ninguem dá a menor atenção, acusa de fresco, de piegas.
A questão é que estar morto não é tão ruim, afinal. "Desde que ganhei meu PhD em desilusão amorosa, tenho me divertido como nunca". Parei de me cobrar pela necessidade de que dê certo, pela idealização de futuros perfeitos desenhados em guardanapos de mesa de restaurante.

Acho que felicidade hoje, por enquanto, é mais que suficiente para mim.

último comentário: Caio Fernando Abreu, pare de viver minha vida!!!


31 de julho de 2011

Para Melani

Eu jurei que ia te achar, Melani. Jurei que chegaria tarde, quando você já estivesse dormindo, mas chegaria. Ia entrar de mansinho, pra não te assustar, e ia deitar do teu lado, quetinho, e beijar  teu corpo, e te acordar com carinho.
A cor da tua pele eu ia adivinhar ali mesmo, no escuro. Não preciso de luz pra te ler, pra te ter. Ler a poesia escrita em você. Que eu escrevi em você. A cor do teu olho parecendo farol na escuridão. Farol azul, farol de oito, nove, dez mares que antes eu nunca vi. O que vi pelo mundo, o mundo que já vi, nada se compara à delícia de estar aqui.
Você acordando devagarinho, com o cabelo desgrenhado, desavisada, linda, surpreendida, surpreendente...




Meu coração,
pé no chão,
que nunca voou,
jamais se apaixonou
hoje está aqui,
rastejando após ti.
Acho que te amo, Melani.

30 de julho de 2011

perdão

Vim aqui me perdoar.

Não posso mais conviver com isso tudo, com essa culpa, essa dor, essa revolta por não ter vindo, vivido e ouvido melhor. Por ter me rendido, ter me entregado numa batalha que desde o começo já estava perdida. Mas a culpa doía, dói, vai doer ainda um pouco mais. A culpa por ter me deixado dominar, subjulgar, como uma velha colônia portuguesa de exploração.
Me perdoar por não te perdoar. Não hoje, não agora. Talvez mais tarde, talvez um dia. quando todas as mágoas forem lembranças, e todas as tristezas nada mais que fotos apagadas de um velho cartão postal. Talvez isso resolva a dor, resolva o medo e a insegurança. Talvez quando eu já for outra pessoa e ninguém mais me reconheça. Mas eu já sou outra pessoa que supostamente nem minha mãe reconhece, e muita coisa mudou, mas muita coisa permanece bem onde você deixou.

Olho para o chão, as estrelas todas mortas, apagadas pelo tempo, jogadas ao vento, sós. Eu também estou só. Ninguém que olha realmente vê, parecem todos cegos a atirar palavras vãs em tentativas coersivas de me acertar, e me derrubar como uma daquelas estrelas.

Mas, inusitada e inesperadamente, até mesmo para mim, de certa forma eu me mantenho de pé. O que me traz aqui mais uma vez, o que me mantém respirando, mesmo depois de todas as idas e vindas, mesmo depois que o nome dela volta a luminescer como um novo acréscimo àquilo que me foi negado, na verdade até raptado, roubado e destituido por você, eu não sei, e pouco importa agora.

Não há tempo que volte, amor. Eu me perdoo por tudo. E não espero compreensão por voltar dez anos no tempo para encontrar comigo mesma, com todas as letras e predicados.

É que, como tudo andava, e ainda hoje até, eu me sinto tão fraco...

16 de julho de 2011

O fim

Pedro estava triste demais pra continuar ali. Paris era linda demais e apaixonanete demais e depressiva demais para um homem abandonado. Todos os dias ele gastava horas a fio no processo de sofrimento e auto-piedade. E por isso ele resolveu mudar de cidade, mudar de vida mesmo, para conseguir esquecer Suzana. Ele não mais dormia, não mais comia, muito menos trabalhava direito por ter que ficar lembrando dela todo o tempo.
-Esse lugar está cheio de recordações... Vou dar o fora daqui e recomeçar a viver.
E assim foi.
Pedro vendeu a casa que ela ajudara a escolher, vendeu o carro que ele comprou por causa do gosto dela, vendeu os móveis que ela decorou na casa dele, deu pra caridade as roupas que ela escolhera e que ele sempre odiara, jogou fora os dvd's, cd's, quadros, postais e fotografias, e pegou a estrada.
A nova cidade era bem diferente de Paris, e ele achou que era longe o suficiente e feia o suficiente,e nada romântica, e serviria bem como retiro de isolamento e desintoxicação psicológica.
Então desceu na rodoviária e deu uma boa olhada ao redor: -É tudo tão calmo aqui, tão diferente das luzes que nunca se apagam de Paris. Sou capaz de apostar que Suzana jamais viveria aqui comigo.

E foi a primeira vez que pensou nela.

Então ele foi procurar um hotel na cidadezinha, algo pra os dois meses necessários para esquecer Suzana. E ele alugou um quarto num pequeno hotel no centro da cidade, não depois de se certificar que o lugar era adequadamente detetizado, conforme o toc que adquiriu com Suzana. Afinal esse tipo de coisa se leva de um relacionamento para a vida.
Tomou o cuidado de escolher um quarto com janela para o poente, para não correr o risco de querer acordar para ver o sol nascer, como foi acostumado a fazer durante todos os anos de casamento. E todas as tardes ele fazia uma caminhada na praia, só para irritar a imagem de Suzana, porque ela odiava caminhar. Então era uma vingançazinha particular. -Estou fazendo isso só para você odiar um pouquinho, querida. E sustentava um risinho de satisfação enquanto andava a beira mar.
Comprou novas roupas, tomando o delicado cuidado de jamais escolher nada que ela pudesse gostar. E comprou novos livros que sabia que ela jamais leria, e viu filmes que com ela jamais conseguiria assistir. Estava realmente empenhado na sua missão de mudar sua vida completamente; o único problema é que, para isso ele estava se referenciando em tudo que ele fora, e para saber o que ele não podia ser tinha que rememorar Suzana para saber exatamente o que não ser, não ter e não fazer. Isso era um problema, pois de toda a forma ele ficava lembrando dela a toda hora. Não estava funcionando. Ele largara toda a vida para esquecer essa mulher e até agora só conseguira vê-la por toda parte.
Era preciso ser mais enérgico. Então Pedro gastou grande parte do dinheiro da venda da casa e do carro e dos móveis - na verdade, talvez ele tenha que ter vendido umas calças também - para comprar uma adega de vinhos na perfireria de Paris. Ele pensou, satisfeito: pelo menos a respeito de vinhos Suzana não tinha gostos favoráveis ou reprovatórios, então deve funcionar. Não vou ter que pensar nela, afinal. E se mudou para a fazendinha.
Foi tudo bem legal, no começo. Havia terraços de uvas para arar a terra, ervas daninhas para arrancar, e uma casa velha para reparar. Mas com o tempo e a solidão chegou o tédio, e o tedio trouxe Suzana com ele. Então daí a acabar com todo o estoque de vinhos da adega em bebedeiras memoráveis foi um pulo. E bêbado ele ainda via Suzana, e com outras mulheres da pequena cidade ele via Suzana, e a noite ele pensava em Suzana e quando dormia sonhava com ela.

"And love
Is not the easy thing
The only baggage
That you can bring
Not the easy thing
The only baggage you can bring
Is all that you can't leave behind"


A essa altura, Suzana já estava casada, com dois filhos de 5 e 3 anos, e esperando o terceiro. Mas quem vai contar isso a ele?
Superar as coisas realmente não é fácil, mas esquecer propositadamente também não ajuda muito.
Deixe a vida acontecer, oras.


*a pedidos e como conselho. =*, Nina!

28 de maio de 2011

Minerais

Tu me disseste que pareço uma rocha:
fria, crua, insólita.

Pois vem após mim,
e lentamente abre meu corpo,
e observa atentamente
como tudo dentro de mim pulsa,
vibrante, numa agonia sôfrega de vida.

Como cada órgão, cada víscera
cada célula e cada átomo
está intimamente envolvido com a tarefa
que lhe foi determinada
com a busca irresistível e irrecusável
daquilo que chamo de felicidade.

Hoje sei muito do mar,
sei muito da vida,
sei muito da dor
e da dor que se sofre pra poder sorrir.


Se você não conseguiu perceber o mínimo movimento
a mais leve agitação,
faça as malas e siga seu rumo,
que garanto ser muito mais que
um frio e morto mineral.

7 de maio de 2011

Explicações inexplicáveis.

Você é...

confusão que nunca acaba.
Turbilhão de sentimentos.
Reunião de grandes oportunidades desperdiçadas
jogadas ao vento
desiludidas, despedaçadas.

No meu braço eu tenho um relógio enlouquecido,
o relógio que você me deu, o relógio que era seu,
que era você.
Relógio que enlouquece o tempo
fazendo tudo andar pra trás.

Você se parece...

Com aquilo tudo que não sei
que nunca sei.
Com tudo que não tenho
nem sei se terei
Com algum livro que nunca li
mas sempre foi colado a mim,
na minha estante, olhando para mim,
me desafiando a lhe folhear
a lhe tatear,  lhe degustar
A lhe ter e lhe tocar.

Você tem...

Algo de místico, alguma coisa mágica
que você costura com sua linha de imaginação
você não pode ser real,
você não pode estar aqui, mas você está, e isso me parece incrível.

Agora eu tenho a cura,
ou tenho a fonte da doença?

Com você o mundo tem um quê de adorável, alguma coisa inexplicável, e eu sou mesmo muito boba por acreditar em algo assim.

Mas eu gosto de acreditar no que você me faz sentir.

Volte e me assombre mais uma vez.

9 de abril de 2011

If I were a boy...

Eu a ouviria.

A primeira coisa certa a se fazer seria ouvir cada uma de suas palavras, por menores que fossem. Ouviria os suspiros também, pois saberia o quanto falam os suspiros.
Estaria lá, e seria atencioso sem ser pegajoso. Estaria sempre lá, quando ela precisasse e quando ela menos esperasse. E saberia deixá-la por um tempo se fosse preciso, mas nunca iria muito longe, estaria sempre por perto, com olhos, ouvidos e braços alerta.

Faria surpresas.

E diria o quanto ela está linda na camisa velha com o cabelo despenteado.
Não diria mentiras, nem a enganaria. Não prometeria amores eternos. Prometeria amores. Os maiores, os melhores, os inesquecíveis, enquanto durarem, enquanto forem pra ser.

Se eu fosse um garoto, eu entenderia o valor que tem o amor de uma mulher. Eu entenderia que ela precisa de algo além do que posso entender, e não ficaria com raiva por não poder alcançar a profundidade do sentimento. Calaria nas complexidades, nas inexplicabilidades e, principalmente, nas TPMs.

Eu não seria o que chamam de príncipe. Não seria perfeito, erraria, e machucaria, mas para cada sofrimento eu voltaria com uma rosa em mãos. Os olhos vermelhos de quem errou mas não queria errar.

Eu não seia nada mais que o homem ao lado de uma mulher. Para qualquer final.

19 de março de 2011

Para xxx

Meu amor,

hoje faz um ano que nosso casamento acabou
duas chaves, um retrato e essa dor
nada mais restou do amor.

O tempo passa impiedoso
fica a saudade, esse desejo,
na tua foto uma lembrança.
Quando foi o último beijo?

Pudera eu decifrar o exílio da indiferença.



Para terminar o que se jurou eterno
se mata o vivente, ou se vive o tormento?

12 de março de 2011

O crescimento das meninas

Era uma vez...

Uma menina...

Pela idade eu bem que poderia dizer uma mulher, ou uma moça, ou ainda uma jovem senhora, mas levando em consideração a sensibilidade, o pouco trato com os desníveis da vida, a delicadeza extrema e a pouca experimentação, o termo dado às iniciantes lhe serve bem melhor.

De lágrimas e de dores entende bem pouco. Sofre demasiado por coisas bem pequenas que ainda não pode compreender, acreditando estar vivendo o maior dilema da história da humanidade bem no meio daquela tarde enfadonha e chuvosa.

Sorrisos tem muitos, para todas as ocasiões, sinceros, de fuga, de denúncia e de sarcasmo, embora este último ainda esteja aprendendo a utilizar com sabedoria, a fim de evitar novas intrigas.

Anda em busca de novidades. Que é o que faz toda menina. Sai de casa em busca de aventura. No outro lado do mundo ou no outro lado do muro do vizinho. Mas sai.
Como uma boa menina, cai, se descabela, chora horrores, acredita que a dor não vai passar nunca, que a cicatriz vai ficar horrível, que ninguém vai gostar mais dela quando ver a marca que vai ficar, passa vários dias no espelho acompanhando a cicatrização, esconde com pó e corretivo qualquer resquício de marca, sai meio desconfiada de casa no primeiro dia, no segundo dia esquece que tudo aquilo aconteceu e está pronta pra uma nova aventura na próxima novidade.
E ela foi feliz pra sempre. Embora esse conceito seja muuuuuuuuito relativo.

"Eu amo tudo o que foi,
Tudo o que já não é,
A dor que já me não dói,
A antiga e errônea fé,
O ontem que dor deixou,
O que deixou alegria
Só porque foi, e voou
E hoje é já outro dia."

Fernando Pessoa

12 de fevereiro de 2011

Ainda

Estranho pensar em ser o que não ser é. Estranho se reconhecer nas lágrimas corridas, estranho ser triste.
Mas não, não sou triste, apesar de parecer, de ter, de correr. De certa forma, sei que não sou.
Então de onde vem, de onde vem tudo isso que me consome, corroi, destroi e controi.
Ainda vou encontrar o que realmente me faz bem, o que me faz ser eu, o que me dá o sorriso nac ara dia após dia.

Ainda vou ser rei de mim.

"De onde vem a calma daquele cara?
Ele não sabe ser melhor, viu?
Como não entende de ser valente?
Ele não saber ser mais viril
Ele não sabe não, viu?
Às vezes dá como um frio
É o mundo que anda hostil
O mundo todo é hostil
De onde vem o jeito tão sem defeito?
Que esse rapaz consegue fingir
Olha esse sorriso tão indeciso
Tá se exibindo pra solidão
Não vão embora daqui
Eu sou o que vocês são
Não solta da minha mão
Não solta da minha mão
Eu não vou mudar não
Eu vou ficar são
Mesmo se for só
Não vou ceder
Deus vai dar aval sim
O mal vai ter fim
E no final assim calado
Eu sei que vou ser coroado
Rei de mim."

24 de janeiro de 2011

Simples assim

Eu não tenho medo de tocá-lo, porque sei exatamente teu ponto fraco, e jamais te machucaria. (Erllen Nadine)
 
 
Embora agora quebrada, a vista pela janela continua a mesma, agora sem riscos de embaçamento. Os bens que tiramos dos males. Uma simples certeza de saber o que há além do olhar, além do toque, além da palavra dita e não dita. Saber o que está lá, mesmo quando aparentemente nada há.
Um corpo que não sabe aonde ir deve se entregar à bússola de vento das vontades reprimidas, não para sempre, mas pelo tempo necessário para se descobrir onde se quer ficar.
Saber com o que se pode contar. Saber o quão forte se é. E quanto se pode aguentar.
Isso não é nada real, meu caro. Não é nada desse mundo, nada palpável, nada lógico ou racional.
Isso não existe? Ah, existe, eu sei que existe porque hoje não sou nada muito além disso.
Isso, que eu chamo de amor.

23 de dezembro de 2010

Passado

Faz tempo, eu sei.
Sei que já nem se quer o número do telefone dela tenho mais, esqueci do endereço e da cor favorita.
Sei que acabei perdendo muita coisa importante pra ela, momentos importantes, histórias engraçadas, coisas que havíamos dito que faríamos juntos. Coisas importantes pra mim também, porque não dizer? Importante pra nós dois.
Sei que hoje tudo parece meio idiota e não faz muito sentido as coisas como estão. Sei que podíamos ter feito diferente, e preservado muita coisa do bom sentimento que havia entre a gente. Mas quem disse que não preservamos? Pelo menos eu preservei. Por mais que esforços tenham sido feitos na tentativa de anular o que se sentiu, nada foi apagado, não é verdade? Já não se sente como antes, mas se sente. Não se retira a importância de uma pessoa na sua vida. Só você sabe o que ela representa, e nem mesmo os amores de hoje anulam o devido lugar que os amores verdadeiros de ontem ocupam.
Sei que por mais que digam que sabem o que você não representa mais pra mim, sei o que você ainda representa. E vai representar sempre. Ficam as reticências muito bem colocadas aqui. E os agradecimentos.
Até o próximo telefonema então.

10 de julho de 2010

Medo. Do mar.

Medo. Medo do mar.
É fundo, profundo assim de não se acabar mais.
Tenho medo.
Não sei nadar. E por não saber, fico na beira a olhar as ondas que vão e vêm numa mesmice totalmente renovada a cada repetição.
Molho as pontas do pés na água gelada que só faz meu medo aumentar.
Mas fico ali na beira, hipnotizada, enfeitiçada, não consigo me afastar. Nem mergulhar.

Por vezes acho que vou me atirar dentro dele; ele que me atrai, me consome de angústia, volúpia e desejo.
Mas tenho medo.
Volto, sento na beira do cais e vejo outros que se aproximam, roubando das ondas os beijos que eu queria provar. E fico ressentida a mirá-lo dando-se assim, sem ressensimento por trair minha devoção imaculada.
Tenho medo.
Provo o salgado das suas águas e confundo com o acre das minhas lágrimas. Já não sei mais se choro gotas de mar ou se são respingos de mar a me molhar.
Fico com medo de perguntar.

Eu queria me entregar. E provar o gosto das marés. Queria tudo do mar. E entristeço por não poder, por temer. Queria tudo do mar, o profundo e o indecifrável do mar, cada onda a me cocegar, queria uma ressaca de mar.

Quero te navegar. Me toma, me envolve, me engole, me arremessa, me encobre e me leva pro fundo. Me afoga, me leva pra te desvendar. Num naufrágio premeditado e deliberado. Consentido, inevitável. Sei que não sei nadar.
Mas quero te provar.
Eu sei que tenho medo. Medo d'Amar.


"O amor é grande e cabe nesta janela sobre o mar.
O mar é grande e cabe na cama e no colchão de amar.
O amor é grande e cabe no breve espaço de beijar."
(Carlos Drummond de Andrade)

4 de julho de 2010

O que devo a ele.

Porque eu nunca esqueci dele.
Porque ele é aquele tipo de pessoa que simplesmente não se consegue esquecer. Tem gente que tem a sorte de encontrar com uma dessas na vida, e eu tive. Sabendo então que essa impossibilidade existia, nem me esforcei em tentar. Tomei ciência, desde quando o senti, o toquei, vi aquele sorriso que ia me acompanhar pelo tempo da eternidade dos dias.
Era amor. Eu o amava talvez desde o primeiro dia, mesmo sem saber. E era um amor muito maior que apenas um amor de carne. Ia muito além de possuir, consumir e saber o que há por dentro. Tive a verdadeira noção do amor talvez pela primeira vez então, amor quando as diferenças imensas já não são mais capazes de separar. Era um amor diferente, desconhecido até então para ambos, amor como que nascido da segurança de se ter um ao outro, mesmo quando não se tinha ainda da forma desejada.
E hoje, que a forma desejada chegou, sou feliz por ele ter me pedido pra ficar.
Por ele ter acreditado, e me pedido pra ficar.
Porque a sua mão segurando a minha me deu força de continuar. E vê-lo continuar remando quando o barco afundava me fazia querer remar também.
Hoje consigo olhar pra frente e acreditar que a felicidade do mundo inteiro cabe numa tarde de conversa, numa ida ao cinema, num milkshake dividido.


Porque você não me deixou desistir, porque toda a felicidade que hoje me cabe devo a você, integralmente.
Obrigada pelo amor mais sincero e lindo que eu já fui capaz de sentir.
Obrigada por estarmos aqui.


A você, meu agradecimento, meu amor, meu sorriso e minha canção.
Cada um dos meus versos, até o fim.
Que não haja fim.

23 de maio de 2010

Carta ao meu amor

Meu amor,

Vim te chamar hoje para ires embora comigo. Para apenas mais uma vez, só por mais um dia, podermos ser só você e eu, no lugar de sonhos e cores que criei para te levar no dia em que você voltar.
Se tivessemos mais um dia, se mais uma chance nos fosse concedida,  um dia para você e eu somente, eu iria gastar todo ele com as pequenas coisas. Nossas pequenas coisas, as monotonias nossas de todos os dias, as coisas que mais me fazem falta. Eu iria te levar para o parque de cerejeiras floridas de outono, iria sentir o perfume da flor branca presa no seu cabelo despenteado pelo vento, enquanto remávamos no lago de águas plácidas lendo a poesia que você mais gosta.
Iria te dar um sorvete com calda de morango, como os morangos do seu nariz, e ficaríamos deitados na grama vendo o sol se pôr, enquanto você cantava desafinando as nossas velhas canções. Iria passar o dia todo assim, olhando você, tocando você, em cada pequena coisa.
Se me fosse concedido mais um dia só com você, tocaria de novo teu rosto como em tempos antigos, até cada um dos teus traços ficarem eternizados na minha memória, até eu poder te ver ao fechar os olhos. Iria prestar meticulosa atenção a cada um dos teus sorrisos, das tuas palavras, os seus olhos e seu corpo. Ficaria ali contigo cada segundo do dia, e quando visse você adormecer, continuaria ali, para poder eu também adormecer em teus braços pela última vez.

Ah, meu amor... Quanta falta pode caber num coração? Quanto mais de saudade ainda se pode sentir? Meu coração que bate unicamente por você agora já tem um compasso mais desacelerado, mais doído, mas solitário.

"Saudade é solidão acompanhada,
é quando o amor ainda não foi embora,
mas o amado já... "

Lembro com carinho da tua mão quente repousando na minha, e da tua cabeça cansada reclinada em meu peito. Lembro do teu riso sem motivo, da tua respiração morna, do teu cheiro bom de menta com alecrim.
Lembro de como eu me sentia inseguro, de como eu tinha medo de nós, de como a simples ideia de me separar de ti me causava uma dor lancinante na alma.
Lembro da primeira vez que te vi, e lembro da primeira vez que te beijei. Foi como me jogar da mais alta montanha num abismo que eu não podia ver onde ia acabar. Foi como mergulhar num mar sem fim. Foi como me sentir enfim vivo pela primeira vez. Do que você se lembra, meu amor? Lembro do teu silêncio que sempre me torturava, e de como eu nunca sabia o que dizer quando via você chorar. Para onde elas vão, todas as coisas que nós pensamos e sentimos mas não dizemos?
Meu mais doce amor, como eu queria ter mais uma chance de poder te contar todas estas coisas que eu nunca disse a você, estas coisas que eu preciso que você saiba... Que eu sempre amei você, com um amor tão grande que vive mesmo após você ter ido.

Eu gostaria de poder dizer a você que eu faria diferente, que se eu tivesse mais um dia eu faria tudo certo. Mas eu sei que isto não é verdade. Eu cometeria todos os mesmos erros. Porque foi você mesmo que me ensinou que quando erramos é na maior das tentativas de não errar.
Por você e com você eu faria tudo de novo. Cometeria os mesmos erros, exceto um... eu não diria adeus.

"Saudade é não saber. Não saber o que fazer com os dias que ficaram mais compridos, não saber como encontrar tarefas que lhe cessem o pensamento, não saber como frear as lágrimas diante de uma música, não saber como vencer a dor de um silêncio que nada preenche."

2 de maio de 2010

Estrela-cadente

Ah...
Deve ser
tristeza o que deu na estrela
ao te ver sofrer.

E então
foi que eu vi a estrela brilhar lá no céu
pra chamar tua atenção.
[e você nem viu]

Ah...
Deve ser
por você não sorrir
que a estrela se jogou do céu
ao te ver partir.

E então
foi que eu vi a estrela tristonha,
cadente do céu
implorando por você aqui.
[mas você não quis]

- Hoje fiz um pedido para acender uma estrela no céu cada vez que você sorrir -

17 de abril de 2010

Nostalgias de sexta à noite

Os cabelos desleixadamente presos no topo da cabeça deixavam algumas mechas caírem distraídas sob o rosto casmurro. Os olhos fundos revelavam noites mal dormidas durante uma semana exaustiva de trabalho. Os dedos nervosos sincronizavam uma melodia ritmada na madeira da mesa, esperando pelo vinho que pedia para tomar sozinha, antes de voltar para casa onde o silêncio de um apartamento a esperava.
Foi quando olhou para o lado, e o viu, também sentado, numa mesa próxima.
Aparentemente era ele, apesar da barba bem feita e da camisa social, tão diferente de há tantos anos. Olhou e achou que o reconhecia, mas não tinha certeza. Alguma coisa a deixava em dúvida.
Talvez fosse a parca iluminação do restaurante. Talvez a distância... Talvez a falta de palavra, a falta de contato. Porque ficava difícil reconhecê-lo de olhos abertos. Perto dele eram sempre os olhos fechados, as mãos juntas, a cabeça placidamente recostada no ombro, as palavras se sucedendo. Nunca precisou de olhos para saber que era ele. E agora ficava estranhamente difícil realizar um reconhecimento baseado em sentidos tão pouco usados antes.
Não conseguia ver, dali de onde estava, se ele estava sozinho ou acompanhado. Engraçado, pensou agora, nunca ter tido notícias dele e de seus relacionamentos dos últimos tempos. Resolveu então acreditar que ele estava sozinho, porque também seria estranho imaginar alguém ouvindo suas velhas histórias, bebendo os mesmos drinks que ele pedia para ela. Era ruim imaginar alguém no lugar dela.
Começou a relembrar dos bons momentos, de risos felizes, de presentes trocados numa noite de Natal, sob as estrelas. Recortes de tudo que eles foram. Começou a se perguntar porque se separaram. Não conseguia lembrar. Aquela nostalgia a estava sufocando, e por várias vezes esteve a ponto de se levantar e chegar na mesa dele. Mas o que dizer? Após anos de silêncio, o que dizer? Os gostos possivelmente haviam mudado, as similaridades deviam estar dessincronizadas agora. Não tinha o que dizer. Era apenas uma velha história, recordações de uma menina apaixonada por seu primeiro namorado. Ela era tão inocente, tão novinha... Nem sabia ainda que profissão ia escolher. Pensava em ser advogada, tão diferente da medicina que escolhe anos depois. Não tinha porque ir lá.
Mas ela queria ir lá, ou melhor ainda, queria que ele viesse ali, e pedisse para lhe fazer companhia em nome dos velhos tempos. E podia quem sabe haver ainda algum acordo entre seus gostos, quem sabe?
Ela teve a impressão que sentia saudades. E foi aí que tomou a decisão
Chamou o garçom, o mesmo que a servia todos os dias que ali ia, e escreveu o bilhete.
Ele ia entender. Claro que ele ia entender. Ele prometera jamais esquecer, e que tipo de gente quebra promessas feitas à primeira namorada?
Esperou ansiosamente a resposta, com o mesmo nervosismo de há 15 anos atrás. A leve distonia disparou. O coração disparou. Era a adolescente de volta?
Quando o garçom se aproximou trazendo o guardanapo dobrado, seu coração estava já aos saltos. Olhou as parcas letras escritas, leu e releu o bilhete, e então tudo veio à tona. Lembrou porque o namoro não durara mais que duas semanas. Desilução ortográfico-amorosa. O cara simplesmente não conseguia escrever duas frases sem três erros ortográficos. E ela nunca suportara erros ortográficos. Muito menos em cartas de amor para ela. Eram suas prioridades: romantismo, respeito e ausência de erros ortográficos. Lembrou mais um motivo pelo qual seus olhos perto delee stavam sempre fechados.
Deu uma risada satisfeita então, de ver que não sentira saudades do bonito rapaz que estava na mesa ao lado. Não eram saudades dele. Eram saudades do que eles foram, de algo que não mais existia. E olhou para si mesma, com um pouco de vergonha, e viu que quem estava sentindo tudo aquilo também não era ela, mas alguém que ela fora há muito tempo, mas que também já tinha ido embora.
Bebericou seu último gole de vinho, pagou a conta, deixou uma gorjeta gorda para o garçom amigo de todas as sextas, e foi para casa fazer companhia ao silêncio de seu apartamento, rindo um pouco de si mesma e das desilusões ortográfico-amorosas.

11 de abril de 2010

1ª conjugação

Naquele dia ele chegou diferente do que costumava chegar.
Deu um boa tarde arrastado e um beijo muolhado, diferente do que costumava dar.
Não xingou a música alta e o livro entreaberto como costumava xingar.
Não reclamou a comida fria e a geladeira vazia como era comum reclamar.
Falou palavras doces e até poemas de amores, como nunca antes soubera declamar.
Entregou a mulher um embrulho machucado com um vestido decotado como ela nunca antes pôde usar.

Olhou a mulher por inteiro e a desejou diferente do que costumava desejar.
E entraram no quarto e trancaram a porta como nunca antes foi de precisar.
E dançaram uma valsa, e tocaram os corpos como nunca antes foi de se ousar.
Pegou-a pela cintura e a amou diferente do que era comum amar.
E fez juras de amor em meio a gemidos loucos que nunca antes soubera expressar.
E os vizinhos ouviram as declarações mais vexatórias, dignas de se envergonhar.
E a polícia veio acudir o chamado dos que não sabiam mais a quem chamar.
E levou preso o casal que contra o pudor e bom costume quis atentar.
E o silêncio fez pronto na rua, como era de se esperar.

{soou ruim no fim, essa monte de -ar, mas eu sempre gostei mais da primeira conjugação, então uma história contada assim era mais um desafio que uma tentativa de boa literatura.}

26 de março de 2010

O que diferencia o remédio do veneno?

Ataduras, bandagens, esparadrapos e mercúrio-cromo. Tento esconder as muitas cicatrizes que trago da vida. Mas as feridas doem, e ardem, e viro tela-exposição de uma existência semi-resignada à dor. Sopro com cuidado o corte último, mais aberto, mais vivo. Sinto o ardorzinho forte do remédio barato de farmácia usado como paleativo para esta dor latejante, dor de quem vive. Porque tem horas que viver dói mesmo.
Distribuo curativos feitos às pressas por todo o corpo, ao mesmo tempo em que lamento não ter prestado atenção àquele curso de primeiros socorros. Os cuidados ficam mal feitos. Os remendos caem, e sou obrigada a refazê-los urgentemente, antes que venham os cachorros lamber as expostas feridas.
Grito ruídos mudos em ouvidos desatentos e almas frias. Não sinto o calor dos corpos que toco. Não sinto o pulso. Onde a vida pulsa? O que me move? O que me muda?
Não, não sou a mesma. Sou uma versão reformulada por retaliações, não a mesma. Aprimorada? Transformada? Deteriorada? Hoje não sei dizer. Sei dizer que enfim consegui olhar claramente para minha imagem feia cheia de arranhões. Criei coragem hoje. Porque antes não tinha. Antes eu estava fugindo de mim. Antes eu era causa perdida. Agora estou achada. Não sou tão amante, nem tão pungente, nem tão intensa, nem tão verdadeira, nem tão menina, nem tão mulher. Nem tão sensata. Sou realidade ilusória, a imagem que cada um cria do que deixo mostrar. E acho que não deixo muito. Quase um pouco para quase ninguém.
Faço cara feia para engolir o xarope amargo para a tosse que não passa. Tosse de pulmão defeituoso por ter inalado gases de uma quase vida.
O silêncio que me acompanha me faz bem agora. Essa incrível paz que me assola em meio aos dias ensolarados e perdidos após uma noite mal dormida. Parece que morri, ou que morreu algo de mim. E o aperto em meu peito me acorda de vez em quando, de vez em quando é hora de tomar remédio. O pequeno vício que criei para mim. Anular a dor. Por hora eu me recuso a mais dor. E engulo a pílula com grandes goles sorvidos de água corrente que escapole da torneira. Hoje peço proteção. O que decido não é fácil.
Nem menos doloroso para mim. Mas sei o que quero agora. Enquanto sigo a estrada que traço pra mim, nas mãos eu levo o nada, e no caminho lavo a alma. Eu não paro, o vento me leva. O vento me traz. Ele sabe onde vou acabar. Se vou acabar.
 De hoje, isso é tudo que eu sei. Se estou tomando remédio ou veneno, eu não sei. Mas vou saber. Um dia vou saber.
Mas de amanhã, de amanhã eu não sei nada, não.

9 de março de 2010

A espera

Quero a simples certeza de que vens.
Com esta dita, dimensões de tempo e espaço perdem lugar para minha ansiedade fria, quase estática, a congelar meus dedos nesse assombroso estado de ânsia de ti.
Quero que me venhas assim como estás, muda, calada, insone, dormente. Com dores, com lágrimas, com tudo que viveste e trouxeste e pudeste carregar nas tuas costas hoje marcadas. Venhas com as cicatrizes semi-curadas de todos os males que te fizeram neste mundo, aquilo te tornou mais viva, mais pungente, mais mulher.
Venhas com tudo que aprendeste mundo afora desde que te vi partir. Já não guardo mágoas. Já não há dores. Espero por ti.
Venhas assim como uma equilibrista a saltar de uma corda bamba, sem rede de proteção. Não louca, apenas viva. Venha sem nada nas mãos, não me tragas presentes, não me tragas lembranças dos lugares que conhecestes sem mim. Não me tragas nada do que tu tens que não foi meu. Não importa seu passado, seus sotaques, seus sorrisos, seus amores de uma noite ou de um verão.
Pulsante. Vem assim, rasgada, humilhada, em frênesi, vem para mim como um dia deixaste meu coração. Vem com teus farrapos de vida, que tenho aqui linha e agulha para remendar teus estragos.
Vem sem demora, que meu peito urge em ouvir tua voz simbilante que eu quase já esqueci. Do teu gosto eu quase já esqueci. Faz tanto tempo, tanto tempo. Mas dos teus olhos eu não esqueci. Esses teus olhos de maresia, teus olhos de ressaca, teus olhos de céu azul. Esses teus olhos que me botavam no chão, que me tinham na mão.Teus olhos de imensidão.
Vem, vem depressa, me convida, me dá um pouco de vida. Se renda, me renda.  Vem que estou ficando louco, ficando rouco, me dói o estômago, me dói a cabeça, estou ficando tonto, estou perdido em prantos.
Te vejo tão longe, e tão longe é tão perto. Por que não me levas? Eu te me sequestro. Vem, que te espero. Mas não sei mais por quanto, sinto um desespero, estou perdendo o tino, sou equilibrista bambo, vou largar a sombrinha, vou cair da linha, vai ficar tudo escuro, vou me perder.
Vem, vamos subir o morro antes do sol nascer, cruzar novamente as ruas desertas de Nantes, nos fazermos de bobos, entre vinhos e noites e madrugadas, rirmos de nossas loucuras gritadas em língua jamais decifrada.

Vem, não importa quando, não importa como.
Não importa se chove, se faz frio, se estás vestida pra festa ou com a tua mais surrada roupa de dormir. Se tens o mais rico tesouro ou se não te resta nenhum vintém nos bolsos da velha calça azul desbotada.
Vem com as delícias de tuas imprecisões medíocres, teus medos infames, tuas beiras todas por aparar. Vem da forma que quiseres, que te quero de toda forma.
Para o amor não há formas. Se me quiseres, se pra mim voltares.
Vem, não importa como.
Apenas vem.