30 de março de 2010

Prognóstico de um Tudofóbico

É inevitável. Vou morrer de doença degenerativa cerebral. Os inúmeros casos familiares estão aí para corroborar minha teoria, juntamente às dores de cabeça cada vez mais frequentes. E ao medo que tenho desse tipo de morte. Porque a coisa que a gente tem medo meio que fareja a gente mesmo, vem atrás, fica perseguindo.
Tenho quase certeza do que vai ser atestado no meu obituário. Massa cinzenta degenerada em 60%, talvez 40% com um pouco de sorte. Mas quem tem sorte nessas coisas?
E tem todos os agravantes... Essa minha alimentação nada rica em proteínas e sais minerais... Fibras quase nenhuma (se bem que pela falta de fibras eu morrerei com uma complicação de câncer de intestino...). O risco constante de pegar qualquer doença transmissível por mosquitinhos graças a viver nesse país tropical carregado de mazelas negligenciadas é um atenuante, afinal se eu morrer de uma febre aguda não terei tempo de esperar a degeneração ceebral. Então terei errado.
Afora isso, é batata. Doença degenerativa. E vai ser triste. Vou receber o diagnóstico resignado, como quem só estava esperando por uma carta que sabia que viria. E aí chorarei pela sociedade, para que eu não me passe ainda por um insensível masoquista. E irei para casa, após a pergunta clássica de quanto tempo me resta.
Não acho que até lá já haverá algum tratamento miraculoso repositor de neurônios. Talvez me indiquem uma fisioterapia para os transtornos musculares, dependendo do tipo de degeneração. talvez não. Não vou querer que nenhuma célula tronco se ponha em divisão frenética para ser inxertada no meu corpo em decomposição precoce. Deixo as células-tronco virarem seres humanos mais saudáveis para ocupar o lugar deste corpo falho.
Vai ter sofrimento, claro que vou sofrer. Acho que como será uma doença crônica, papai e mamãe não vão estar lá para chorar comigo... Como casamento e filhos trata-se de uma probabilidade improvável, acho que vou chegar em casa e ligar para umas duas amigas do tempo da faculdade para pelo menos sentir a alegria de ver que alguém vai sofrer por você. Mesmo que seja um falso sofrimento copiosamente derramado sobre as fibras ópticas e nada mais.
Vou então fazer meu testamento deixando tudo para os sobrinhos de segundo grau, tudo que meu salário pode comprar, um apartamento semi-quitado e um carro semi-novo, todo quitado. E algumas divídas que guardo na mesa da esquerda da escrivaninha para um dia que sobrar um dinheirinho - que não vou deixar sobrar.
Aproveito logo para fazer um plano de saúde de respeito enquanto eles não suspeitam de nada. Se bem que, como eles vasculham tudo antes de aceitarem o cliente, é bem capaz de lerem tudo isso aqui e me recusarem, o que me faz pensar na possibilidade de não postar nada, que eu imediatamente descarto, pois não tenho nenhuma outra ideia em mente para um texto a por no lugar deste. Então vai isso mesmo, oras.
Morrerei sozinha, sem grandes lastimações. Não quero velório. Por dois motivos, um para não correr o risco de ninguém ir por lá, e dois para não correr o risco de alguém ir chorar por lá. Nunca fui muito fã de choro de velório.
Meus primos de segundo grau, ainda muito revoltados pelo saldo negativo de herança e pela ausência de um seguro de vida, irão ao enterro vestidos de preto, com lenços de seda enxugando os olhos já enxutos, e poderão então dizer como fui um tio inesquecível, e como sentirão minha falta.
Eu deixarei aqui escrito a eles, então, que não vou guardar rancor por nunca ter sido visitado em nenhum domingo, por ter jogado fora as sobremesas que nunca comi sozinho por ter medo de diabetes, dos bolos que comprei e joguei fora por medo do colesterol, das grades de cerveja que eu trazia em consignação todos os sábados e nunca bebi sozinho por medo de cirrose.
Lamentarei apenas não ter pulado de pára-quedas por medo de altura, de não ter ido em Paris por medo de avião, de não ter saído de madrugada por ter medo de assalto e motorista bêbado.
Ah, sim, exijo como último pedido na minha lápide um epitáfio bem bonito, dizendo como fui feliz e como aproveitei a vida. Vai que algum trouxo acredita, pelo menos morto eu vou ter ares de quem descansa em paz.

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