30 de novembro de 2009

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"Se quer saber, sim, é saudade de você.
Todos os dias, várias vezes durante cada hora.
Ando a me pegar distraído, rindo sozinho.
Rio de ti, ou rio de mim?
Acho que rio dos dois. De nós dois.
Nós dois parece engraçado. Juntar EU + TU.

Ainda que meu excesso cético faça tudo parecer cômico e improvável, EU + TU é uma coisa que anda me fazendo andar à volta com risos bobos. Felicidade em doses homeopáticas.
E ainda tem essa saudade bem minha, bem tua, bem nossa.

É como dizem por aí, Do nosso amor, a gente é quem sabe..."

Medo meu

E o que vieste cá fazer, medo meu?
Deixa-me dormir, que amanhã acordo cedo... O dia é longo, e sempre haverão novas coisas a me assustar.
Não serás o único, não estaremos mais a sós.
Não será apenas a tua voz a me assombrar.
Então deixa-me dormir... Deixa-me sonhar...
Deixa-me ficar com o pouco de paz que me resta.
Com o tanto de vida que me cabe nesse burburinho.
Deixa-me dormir, medo meu.

A saudade, a frase perdida, um não, a dor...
A janela, a madrugada,
a partida, a chegada.
Amanhã o medo vai ter que cor?

Aniversário

-Sabe Amélie, é triste ficar velho.

-Sabe qual é a maior tristeza em ficar velho, pequena criança?
-Não, não sei.

-É passar da idade de poder chorar sem motivo, e levar a vida a ter que dar explicações lógicas a coisas que simplesmente não as têm, que apenas são o que são, indefiníveis.
É começar a juntar nossas emoções em ordem biográfica, cronológica, separando em dias, meses e anos o burburinho de sentimentos, como fotos num álbum de família.
É alcançar a idade de construir textos preocupado com métricas e rimas ricas para se dizer o que se sente, esquecendo os olhares e os colos onde podemos apenas nos recolher na hora que quisermos, sendo totalmente compreendidos em nossas angústias, anseios e amores.
É adquirir a capacidade de colecionar sentimentos inúteis, maquinações e premeditações, trocando nossa impulsividade infantil pelos medos, pelas táticas, pela racionalidade.
É aprender a viver histórias emprestadas, imitadas, vislubradas entre uma propaganda e um anúncio de TV.
É esquecer nossas verdades absolutas, nosso mundo tão pequeno e tão imenso por referências, análises e filosofias de outrem.
É parar de usar tão somente os pronomes pessoais do caso reto, se impondo os incômodos oblíquos.
É precisar de analgésicos e opióides para ser feliz na vida.

A bailarina

Ela tropeça os pés calçados com sapato de fita nos versos que espalha pelo chão. A bailarina já não ouve mais canção.
A sapatilha usada, gasta, estragada. A sapatilha que de tanto no mundo tão pouco viu, tão pouco sabe.
Os passos ensaiados em frente ao espelho, como quem quer alcançar a perfeição de si mirando no que há fora. A singeleza do gesto, a magia de cada rodopio.
Os passos no ritmo da bossa nova... A bossa embalando as voltas.
As quedas disfarçadas num passo de dança.
A bossa entoando a vida. A bossa nem mais tão nova...
As notas das canções, pintadas de azul. Azul cor de poesia.
Dó Ré Mi Fá[zendo] eco em mim,
Não estamos Sós,
Lá vamos nós outra vez...
Tentando refazer o que sobrou de si.

A bailarina procura certezas em meio às incoerências. Os passos desconcertados de uma valsa já batida, já marcada.
Ela senta no chão, esperando não se sabe o quê.
Ou ela espera história acontecer. Esperando a música soar, as notas vibrarem, ela espera os versos azuis.
A bailarina espera o dia de dançar.
Enquanto isso ela cuida de si.
Ela cuida das sapatilhas, minuciosamente, com gestos mínimos, sussurrados...
Enquanto entoa a valsa triste de quem espera um amanhã incerto.

"Astronauta, diz pra mim cade você, bailarina não consegue mais viver."

Alguém?

Quem um dia irá entender o seu destino?
E andar com os seus passos?
E um dia acordar olhando o seu rosto,
e dormir sob as mesmas estrelas?


Quando os dias não forem tão maus,
Quando os inexoráveis forem dissolvidos,
Quando se derem compreensões,
Quando formos o que podemos ser.


Quem irá lhe colher flores?

Quem lhe cantará canções?

O vento passando, o vento soprando,
trazendo e levando o que não é pra ficar.

Ela vai deixar a porta aberta
vai deixar a casa limpa
quem não tropeçar na soleira
sinta-se em casa,
entre e a faça feliz!