8 de dezembro de 2009

Retórica

Se o cromossomo é Y, por que ele tem forma de X???

6 de dezembro de 2009

Eu e o tempo

A vida e suas formas de inexpressão. Quando ao não se dizer nada, se diz tudo que se precisa ouvir.
Engraçado quando tiramos as maiores lições dos lugares mais improváveis.
Quando encontramos um pedaço de nós mesmos perdido no caminho. Quando o deixamos ali? Desde quando não mais o temos? Quando o abandonamos? E agora que o vemos à nossa frente, temos o direito de recolhê-lo, e reintegrá-lo ao seu original lugar?

Saudades e esquecimentos. As maiores habilidades do TEMPO. Eu e o tempo. Ele, sacerdote das razões humanas... Eu, mísero aprendiz da vida.
Ele, construtor e destruidor. Pai da transitoriedade. Ele, que nos faz mutáveis. Ele, que nos faz nós mesmos. Num processo eterno de vir a ser.
Ele, que nos assola, que nos consome, que nos leva amores, que nos traz amáveis... Ele, o tempo, mestre das transições, nas suas cirandas intermináveis, cumprindo a metódica novidade de todos os dias, fazendo girar a ciranda das horas, escorrer as cinzas da ampulheta da vida. Vida, vida. Que vida?
Venho noticiar que a vida sobrevive, senhoras e senhores. A vida sobrevive a cada dia. Novos dias. O tempo se encarrega de separar nossas folhas de calendário. E assim, nossas penas parecem menos dolorosas. Como se pudéssemos separar o indivisível tempo em frações mais facilmente transportáveis. E tudo parece possível, e novas esperanças surgem, porque nasceu um novo dia após 31 de dezembro.

Caminhamos juntos, o tempo e eu, pela estrada de nossos anseios, percorrendo a trilha incerta dos nossos dias. Numa relação quase sacramentada sobre o altar profano da vida. Numa forma ilimitada de ser humano, numa forma limitada de se descobrir um pouco divino. Numa sacra liturgia pagã consagrando nossos dias.
Sonhando nossos sonhos em meio a terrenos alagados, submergíveis, traiçoeiros. O tempo que nos é dado de graça vem cobrando seu preço. Porque o de graça tem seu preço.
Onde encontramos as certezas?
Quem pode nos dar alguma coisa real o suficiente para tornar-se paupável, para tornar-se verdade?
Ando as estradas do mundo procurando... Mas o que procuro?
Para onde vamos?
Para onde nos leva o tempo? Tempo de plantar, e tempo de colher... Para recomeçar, tempo de amar... Hoje é um tempo. Que tempo? Como saber o que hoje viver?
A vida e seu movimento. Os ponteiros do tempo que nunca se calam. Às vezes me sinto mais lenta que eles... Quase sempre. E o descompasso cansa. O coração não é de acelerar. O coração vive seus dias no tempo do amor miúdo, no tempo das pequenas alegrias das pequenas coisas. Mas o corpo não sabe esperar. Mas como separar? Ou como conciliar?

A vida anda rápida demais... Quero ir mais devagar. Quero o direito de escolher a cronicidade dos meus dias. Sem atropelar meus próprios passos. Outonos e primaveras. Sorrisos e lágrimas. Versos e reversos. Direitos e esquerdos. Os contrários da vida. Paisagens, cores, luzes, flores.
Chamam-me de utópica. Ufanista. Sonhadora. Inocente. Isso me incomodava antes. Antes. Não mais agora. Não mais quando me descobri indivisível com a sacralidade da vida. Não me permito negar-me a mim mesma. Negar os sentimentos, negar o que pulsa. Onde a vida me pulsa. Onde eu me demoro. Onde plantei meus sonhos. Onde depositei minha liberdade de ser quem eu sou, de acreditar no que escolhi crer, de amar o que amo, de ser o avesso que nem sempre revelo, mas que faz parte de mim. Será que tu sabes até onde eu posso ir? Tu sabes o que há em mim? Talvez vejas melhor que eu... Mas as minhas horas sou eu que faço. Quem poderia sentar ao meu lado e esperar o meio-dia?

Descobrir a beleza de um amor que ainda não tinha encontrado. Um amor que nunca soube dar, um amor que desconhecia. Um amor que se revela em inutilidades. Amor sobre rosas e espinhos.
É fácil amar o que está no pódio. Amar o louvável. Amar o aplaudido. Mas amor só pode se dizer amor quando se chega perto o suficiente pra descobrir os avessos, os contrários. E ainda assim poder ficar junto. Amar um inútil, amar alguma coisa que não pode nos acrescentar algo que buscamos, mas que pode estar ao nosso lado, sendo amor em sua inutilidade.
Queria poder ser inútil assim para alguém. Poder enxergar e ser enxergada além do que os olhos e as concepções podem ver. Amores de rosas, com flores e espinhos que são um só, que não se podem dar em separado. Sem idealizações, sem altares, sem mistificações. Só direi que amo verdadeiramente quando esbarrar nas imperfeições, nas limitações, nas facetas mais sujas e mais repugnantes, e ainda assim reconhecer aquilo como parte que não posso renunciar. Por isso amor exige análise. Exige demora. Não há amor na pressa. Nem nas muitas palavras. Amor é feito de silêncios muitos.

Quero viver meus dias como um menino travesso que está descobrindo seus brinquedos. E que brinca até o entardecer, até a mãe chamar pra casa... Um menino que sabe o valor de cada hora exatamente por não se dar conta de hora nenhuma.
De que lhe vale o relógio, se ele precisa apenas saber que, à hora certa, a mãe virá lhe chamar, e somente esta hora lhe será importante conhecer durante todo o dia.
Não quero martírios antes da hora. Não quero as horas. Quero ser tudo que eu posso ser, entre o que aplaudes e o que abominas, ser amor em minha inutilidade.
Abrir as portas, esperar os próximos ônibus, cantar as canções. Ser o que de mim sei que posso ser. Eu sou assim, sem culpas. O que me faz ver a vida como vejo, o que me faz ser como sou é tudo uma parte só, uma coisa só. Se me separo, me perco. Me desconheço. O sublime mistério da minha paganidade.

Se eu tivesse sido outro, esse amor teria me encontrado?
Quero tentar.
Até onde as horas puderem nos levar. E que seja longe, que seja muito, até perder as horas.



"Quando com ele [o tempo] faço acordo
Sorrio com os motivos de suas alegrias
E poetizo as tristezas que de suas mãos se desprendem.
Mas quando com ele posso...
Ah, quando com ele posso, eu dele me esqueço
E vivo..."

4 de dezembro de 2009

Pedacinhos

De vez em quando a gente é guerra. De vez em quando, porque ninguém é sempre paz.
De vez em quando...
De vez em quando a gente se desconhece... Porque ninguém sabe tudo de si mesmo.
E eu, pequena criança descobridora do mundo, ando tentando colar os pedaços da vida. Engraçado a gente ganhar a vida assim desmontada... Abre o universo de possibilidades.
Sim, eu posso colocar as peças que me der vontade. E seria tudo fácil assim, se não fosse o fato de que não tenho todas as peças que quero, oras.
Afinal, ninguém disse que seria fácil...
Minha brincadeira é séria. Levo a vida como quem empina pipa, cada vez mais alto, cada vez mais longe... Mas empino pipa como quem quer ser o dono do céu...

2 de dezembro de 2009

Despojos de batalha

A gente anda correndo perigo.
Perdemos o medo que nos mantinha
a uma distância segura, a salvo de nós mesmos
e dos nossos desejos.


Perdemos o pudor, perdemos as ressalvas.
Nossos corpos que já não tem mais paz.
Um doce magnetismo lutando contra o infactível.


Sentes?
Queres?
Deves?
Podes?


Todas as cartas no jogo, não há mais nada na manga.
E as impossibilidades estão todas bem à nossa frente
A gentenão consegue ver, ou não queremos ver...


O que mais queres de mim? Se já expuseste todas as minhas veias?
Todo esse sangue jogado no chão...
Carnificina. Genocídio.
O que não sou de ti?!? O que não tens de mim?


Nosso encontro marcado,
está tudo arranjado
será daqui a dois dias,
será daqui a dois anos,
será no fim da vida
será quando?
Será?
Haverá pra nós um será?
O que haverá?


Perigoso te amar... Perigoso querer.
Quem de nós vai perder?
O que temos a perder?
O que eu farei sem você?
O que faremos desse quase a nos punir?


Quem de nós é o mais forte?
Quanta força há em nós?
Onde está o elo mais fraco?
Pra que precisamos de vencedor,
se no fim somos todos iguais?


Às vezes fica turvo, nossa vida louca vida
manchada com o sangue que temos perdido
marejada das lágrimas que temos chorado
e das dores que temos doído.
E eu não consigo enxergar.
Não consigo te enxergar.


"O que você me pede eu não posso fazer
Assim você me perde, eu perco você (...)
O que você não pode, eu não vou te pedir.
O que você não quer, eu não quero insistir.
Diga a verdade, doa a quem doer.
Doe sangue e me dê seu telefone."

Eu, que não amo você

Eu, que não amo você,
vim aqui apenas dizer
que não dá, que não vou me render,
que não vou me entregar.
O que há com você?
Eu não amo você.
Eu não quero você.
Eu não sou você.

Não tenho você.
Eu mal sinto você.
Não amo você.

Não sofro você.
Não desejo você.
Não há o que dizer
não sei nos entender.

Pra que insistir?
Até onde a gente pode cair?
Pra que vamos sonhar
se eu não amo você?

Não venha me tocar,
não me faça te desejar,
eu não quero te querer,
eu, que não amo você.

Eu, que não sei não tremer,
que não sei me afastar.
O que é que me dá?
Quando você chega,
Eu, que não amo você?

Eu não amo você
nãotequeronãotremonãodesejo,negroamor.
Estou te dizendo, não amo você.

O que parece saudade, não é.
O que parece desejo, não é.
O que parece vida, não é.
O que parece eu, não é.
E o que parece você, o que é?

Eu não sei o que é.
Eu não amo você.
Mas a quem eu quero convencer?
A mim ou a você?