24 de janeiro de 2011

Simples assim

Eu não tenho medo de tocá-lo, porque sei exatamente teu ponto fraco, e jamais te machucaria. (Erllen Nadine)
 
 
Embora agora quebrada, a vista pela janela continua a mesma, agora sem riscos de embaçamento. Os bens que tiramos dos males. Uma simples certeza de saber o que há além do olhar, além do toque, além da palavra dita e não dita. Saber o que está lá, mesmo quando aparentemente nada há.
Um corpo que não sabe aonde ir deve se entregar à bússola de vento das vontades reprimidas, não para sempre, mas pelo tempo necessário para se descobrir onde se quer ficar.
Saber com o que se pode contar. Saber o quão forte se é. E quanto se pode aguentar.
Isso não é nada real, meu caro. Não é nada desse mundo, nada palpável, nada lógico ou racional.
Isso não existe? Ah, existe, eu sei que existe porque hoje não sou nada muito além disso.
Isso, que eu chamo de amor.

23 de dezembro de 2010

Passado

Faz tempo, eu sei.
Sei que já nem se quer o número do telefone dela tenho mais, esqueci do endereço e da cor favorita.
Sei que acabei perdendo muita coisa importante pra ela, momentos importantes, histórias engraçadas, coisas que havíamos dito que faríamos juntos. Coisas importantes pra mim também, porque não dizer? Importante pra nós dois.
Sei que hoje tudo parece meio idiota e não faz muito sentido as coisas como estão. Sei que podíamos ter feito diferente, e preservado muita coisa do bom sentimento que havia entre a gente. Mas quem disse que não preservamos? Pelo menos eu preservei. Por mais que esforços tenham sido feitos na tentativa de anular o que se sentiu, nada foi apagado, não é verdade? Já não se sente como antes, mas se sente. Não se retira a importância de uma pessoa na sua vida. Só você sabe o que ela representa, e nem mesmo os amores de hoje anulam o devido lugar que os amores verdadeiros de ontem ocupam.
Sei que por mais que digam que sabem o que você não representa mais pra mim, sei o que você ainda representa. E vai representar sempre. Ficam as reticências muito bem colocadas aqui. E os agradecimentos.
Até o próximo telefonema então.

Verdades

Hoje me deu tristeza
tristeza porque o mundo é triste, e mau,
e impiedoso.
Riu da minha cara e da minha esperança
voitou como um bêbado ressacado
sobre mim a insólita verdade:
que amanhã ainda vou ser triste
porque já não sei mais ser feliz.

Isso pode não fazer muito sentido
mas enquanto ele de mim ri,
eu choro, e acredito
e choro de novo,
e tenho medo de ficar só aqui.

Sim, sou muito louco,
vago pelos caminhos como sôfrego
desesperado
ansiando pela paz
que eu não consigo encontrar
e o não encontrar apenas
acentua meu já terrível desespero.

Quero apenas me deitar,
ouvir canções que se cantavam em Lisboa
enquanto felicidade ainda havia,
e então me permitir dormir
enquanto suplico uma prece para não mais acordar.
Para não mais acordar.

15 de dezembro de 2010

Aguardo

Os professores falam sobre revoluções, mudanças e dissertam longas horas acerca da coragem que devemos de ter. Os políticos, por sua vez, insuflam o peito sobre as reformas sociais, jurídicas e de moral de extrema necessidade. Os comunistas defendem a ausência dos males da dominação, e os filósofos decorrem sobre as tecnociências que metrificam, dirigem, corrompem e constroem a sociedade, ou aquilo que assim chamamos.
Os comerciantes defendem a usura, ainda mais a  praticada de maneira a sonegá-la. Os pesquisadores buscam a cura de todos os males. Os historiadores tentam nos retratar a origem do mal, e os filósofos querem entender a razão de todas as coisas.
Os biólogos querem salvar as baleias, a camada de ozônio e o mico-leão-dourado.Os pacifistas querem o caminho para a paz mundial. Os astronautas querem ir a marte e os alquimistas querem a pedra filosofal.




Eu? Por hora largo todas as causas urgentes da humanidade, me sento na cadeira de balanço da varanda, olhando o sol se por como se fosse a primeira vez. O que espero?
Espero que corra no meu sangue aquela sensação, tão simples, tão boa, aquela sensação indispensável que me dá a certeza de estar viva.



Espero a poesia voltar pra mim.



Ah, poeta vagabundo... Quanto tempo achas que conseguirás ficar calado?

25 de novembro de 2010

Reforma

Estou em obras. Estado sitiado e interditado, precisando de reparos urgentes. Desculpe-me os transtornos causados, o barulho, a confusão e o entulho jogado pro lado de fora.
Antes que a obra fosse embargada por falta de licença, vim te comunicar que precisava da reforma antes de ser interditada ou desmoronar sem mesmo avisar.
Caos. Fuligem, serragem, barulho, bagunça.
Esta obra está me deixando louca, mas antes a obra que o estrago de não me dar a oportunidade de reformular tudo que vai aqui por dentro.
O martelo dentro do meu ouvido... Martelo pequeno, micrométrico, bigornando meu estribo. Toc, toc, toc.
As pregas do meu intestino precisavam ser melhor fixadas, consequência do último medo com frio na barriga. Nada que prego 7mm não possa resolver. E a furadeira entoando as canções que não sei cantar. Destoamos unissonamente a mesma canção de versos separados. Jogo reboco na parede para pintar sorrisos que não sei mais dar. Reboco na cara para esconder a espinha malfadada que descobri ao acordar.
Ah, não posso esquecer de dar uma mão de cal por cima de tudo. Parecendo nova escondo minha roupa velha, saio pra festa como jogadora de palavras que sou, com medo de ser descoberta. Com medo que caiam os rebocos, a tinta, os pregos, tudo.
Olho as outras pessoas e admiro sua bela construção, passeando languidamente exibindo seus ricos tijolos aparentes lustrados com verniz.. Fico pensando quanto tempo levaram para erguer tão belos prédios. Fico pensando se precisam de obras também. Se estão em obras e ficam escondendo de mim, para me fazer sentir tão só nesse universo de imperfeição.
Silêncio após o desmoronamento de mais uma parede. Doeu um pouco, raspou tinta do coração. Alguns canos de lágrimas estourados. Mais coisa pra consertar.
Sento e começo tudo de novo. Permaneço aqui por hora, o último que sair apague a luz.