-Você me esqueceu! Você me abandonou aqui! Não gosto mais de você!
-Não fale assim minha menina, você não sabe o quanto senti tua falta, e quanto estive triste por esse mundo sem saber como voltar para te ver.
-É mentira. Todo esse tempo e nenhum telefonema, nenhum recado, nenhuma lembrança nem cartão postal. Você nem sequer se deu ao trabalho de se fazer lembrar. E eu aqui, pensando em você, preocupada com o que poderia ter te acontecido.
-Pois havia mesmo razões para você se preocupar. Andei por lugares horríveis, lugares escuros e frios, lugares onde as pessoas não gostavam de poesia, não queriam ouvir meus versos nem minhas canções. Pessoas que quiseram me fazer esquecer de onde vim e de que fui feita. Levei muito tempo para descobrir onde eu estava e quem eu era, e mais tempo ainda para descobrir o caminho de volta até você.
-Não acredito em você.
-Eu desaprendi a voar, minha doce Amélie. E por mais que tentasse, não conseguia me lembrar como eu fazia para flutuar sobre as nuvens. Era tão fácil com você. E o sussuro do vento, eu também desaprendi a ouvir. Então não conseguia ouvir seus doces recados que sempre me guiaram sendo transportados pelo vento. E nem quando chovia, Amélie, nem quando chovia eu conseguia misturar gota de lágrima e gota de chuva como se fosse uma coisa só, pra fazer um aguaçeiro de poesia. Eu acho que longe de você eu não sei muito das coisas, Amélie. Esqueci como dançar, como cantar, sorrir e até como amar. Os amores que tive doíam, doíam, mais do que curavam. E eu estava só, Amélie, só por não ter você, e nem ter a mim mesma.
-Sei bem como é se perder. Eu mesma me perdi há muito tempo atrás... Em idades longínquas que nem o tempo sabe contar. Mas quando a gente além de se perder na estrada, se perde dentro de si mesmo, é preciso muita muita luta pra saber aonde você quer mesmo ir parar. Se vale mais a pena o eu de hoje, o eu de ontem ou um eu de talvez amanhã. Descobrir onde está o seu verdadeiro eu.
-Aprendi, Amélie, que a escala evolutiva não nos leva sempre para o lugar onde queremos estar. O problema foi convencer a mim mesma que era certo voltar, que não era retroceder, mas se encontrar. Assumir o que eu era, o que eu sou e quero ser. O que eu tenho orgulho de ser. Foi quando peguei a auto-estrada, escrevi para ti um bilhete na rodoviária, onde eu contava a minha sina, contava que eu cansei de ser maltratada, contava as contas que deixei sem serem pagas e todas as minhas desesperanças. Eu estava triste, e com muito medo de nunca encontrar o caminho de volta.
- E como você conseguiu voltar?Como chegou aqui?
- Eu ouvi a canção. Eu estive vivo sem viver mas no fundo nunca deixei de escutar. A canção que era por você, era por mim e por toda a minha fé. A canção que me trouxe até aqui. A canção que soube esperar pelo dia em que eu quis voltar. A canção na contramão da estrada que não tinha nenhum chão, não tinha carros, não tinha ida nem vinda, não tinha nada que eu pudesse ou quisesse ver ou tocar. O que me trouxe foi a canção que nunca abandonou meu coração.
-É tão bom o efeito sonoro de você sussurrando suas loucas histórias no meu coração. Seja bem vinda de volta, você agora está em casa, e mesmo que vá pra longe, você vai saber voltar, e eu sempre vou estar aqui, afinal, esperando você.
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28 de maio de 2011
2 de outubro de 2010
Palavras
A vontade de Amélie naquele momento era pegar todas as palavras cuspidas na hora da raiva, arrancá-las do ouvido que as tinha injustamente engolido tímpano a baixo, e enfiá-las todas, uma a uma, mesmo com o gosto amargo e travoso que elas tinham, em seu estômago, de onde nunca deviam ter saído.
Mas não dava de desdizer o já dito. Ela ficou com muita raiva, muita raiva mesmo, e não teve como controlar o turbilhão de coisas que começaram a jorrar da sua cabeça e cairam todas espalhadas no chão. Foi difícil limpar tudo aquilo, e depois de terminar, ela estava muito, muito cansada.
Então Amélie ficou ali, quetinha, deitada no chão, olhando as estrelas que surgiam pela janela do quarto.
Começou a contar uma a uma. Era o que ela fazia quando não sabia o que fazer ou dizer. Ia fazer algo assim sem sentido, pra tentar achar alguma resposta nos lugares impróvavéis, pois é lá que ela acreditava estarem as respostas realmente boas.
Naquele dia ela estava demasiado triste, porque ela odiava ficar sozinha, e já faziam 5 dias que ela estava mais só do que jamais esteve em toda sua vida.
Era difícil pra ela não ter com quem conversar, ou pra quem rir ou não ter alguém pra almoçar com ela ou sair pra lanchar mesmo sem ter fome, só pra comer a torta de limão que ela gostava tanto só pra apreciar o sabor.
Sobretudo, Amélie estava triste por saber que não passava de uma bonequinha numa prateleira do quarto da menina, e que por mais que ela lhe dissesse todos os dias o quanto ela era sua preferida, e o quanto nenhuma outra bomeca jamais ocupou um lugar tão especial no seu coração, Amélie sentia uma pontada de ciúme ao ver a menina com os outros brinquedos. Um olhar desatento pesa que a pequena bonequinha não passava de uma egoísta mimada, mas é que para Amélie era difícil. A menina tinha todos os outros brinquedos, e a escola, e os passeios que ela fazia sempre depois de jantar pelos lugares legais da cidade, mas Amélie só tinha a menina, e quando a menina não estava, era a prateleira fria e solitária que restava.
Os outros brinquedos não gostavam muito de Amélie, então a solidão só aumentava. Viviam dizendo o quanto ela era chata, mimada e frágil, e ameaçavam o tempo todo jogá-la de cima do armário, e Amélie tinha medo realmente de quebrar a porcelana do seu rosto.
Então, ali sozinha e com medo de um atentado a qualquer minuto, ela começou a viajar no mundo das ideias enquanto contava as estrelas. A saudade da menina doia, doia muito. Ela sabia que a menina não ia voltar tão cedo, o que era pior pois demoraria mais para que ela pudesse remediar tudo que berrou pra ela antes dela sair. Todo aquele ciúme, medo e insegurança estouraram de uma vez e as coisas mais feias, coisas que ela nunca tinha dito, nem sabia que podia dizer, ela gritou desesperadamente (e injustamente). A menina saiu do quarto magoada, e quando Amélie tentou correr para alcançá-la e dizer que nada daquilo ela realmente quisera dizer, que ela a amava muito, e que tudo ia passar e pronto, foi impedida pelas suas penas plásticas de boneca (detestou a limitada tecnologia naquele momento).
Então Amélie, que não sabia o que fazer, foi dormir e esperar que amanhã fosse um dia melhor, que a menina voltasse e tudo voltasse a ser como sempre foi.
Pena que Amélie estava com medo de dormir e sonhar com as antigas bonecas malvadas.
Mas não dava de desdizer o já dito. Ela ficou com muita raiva, muita raiva mesmo, e não teve como controlar o turbilhão de coisas que começaram a jorrar da sua cabeça e cairam todas espalhadas no chão. Foi difícil limpar tudo aquilo, e depois de terminar, ela estava muito, muito cansada.
Então Amélie ficou ali, quetinha, deitada no chão, olhando as estrelas que surgiam pela janela do quarto.
Começou a contar uma a uma. Era o que ela fazia quando não sabia o que fazer ou dizer. Ia fazer algo assim sem sentido, pra tentar achar alguma resposta nos lugares impróvavéis, pois é lá que ela acreditava estarem as respostas realmente boas.
Naquele dia ela estava demasiado triste, porque ela odiava ficar sozinha, e já faziam 5 dias que ela estava mais só do que jamais esteve em toda sua vida.
Era difícil pra ela não ter com quem conversar, ou pra quem rir ou não ter alguém pra almoçar com ela ou sair pra lanchar mesmo sem ter fome, só pra comer a torta de limão que ela gostava tanto só pra apreciar o sabor.
Sobretudo, Amélie estava triste por saber que não passava de uma bonequinha numa prateleira do quarto da menina, e que por mais que ela lhe dissesse todos os dias o quanto ela era sua preferida, e o quanto nenhuma outra bomeca jamais ocupou um lugar tão especial no seu coração, Amélie sentia uma pontada de ciúme ao ver a menina com os outros brinquedos. Um olhar desatento pesa que a pequena bonequinha não passava de uma egoísta mimada, mas é que para Amélie era difícil. A menina tinha todos os outros brinquedos, e a escola, e os passeios que ela fazia sempre depois de jantar pelos lugares legais da cidade, mas Amélie só tinha a menina, e quando a menina não estava, era a prateleira fria e solitária que restava.
Os outros brinquedos não gostavam muito de Amélie, então a solidão só aumentava. Viviam dizendo o quanto ela era chata, mimada e frágil, e ameaçavam o tempo todo jogá-la de cima do armário, e Amélie tinha medo realmente de quebrar a porcelana do seu rosto.
Então, ali sozinha e com medo de um atentado a qualquer minuto, ela começou a viajar no mundo das ideias enquanto contava as estrelas. A saudade da menina doia, doia muito. Ela sabia que a menina não ia voltar tão cedo, o que era pior pois demoraria mais para que ela pudesse remediar tudo que berrou pra ela antes dela sair. Todo aquele ciúme, medo e insegurança estouraram de uma vez e as coisas mais feias, coisas que ela nunca tinha dito, nem sabia que podia dizer, ela gritou desesperadamente (e injustamente). A menina saiu do quarto magoada, e quando Amélie tentou correr para alcançá-la e dizer que nada daquilo ela realmente quisera dizer, que ela a amava muito, e que tudo ia passar e pronto, foi impedida pelas suas penas plásticas de boneca (detestou a limitada tecnologia naquele momento).
Então Amélie, que não sabia o que fazer, foi dormir e esperar que amanhã fosse um dia melhor, que a menina voltasse e tudo voltasse a ser como sempre foi.
Pena que Amélie estava com medo de dormir e sonhar com as antigas bonecas malvadas.
16 de março de 2010
Menina
Porque o mais triste, Amelie, e que a capacidade de sonhar eu estou perdendo nesse caminho meio escuro, e sem ela nao sei bem onde colocar os pes...
11 de fevereiro de 2010
Fazendo as malas
Amelie, quando a gente sabe que esta na hora de ir embora?
Minha pequena crianca, essa pergunta foi dificil... Tem horas que o coracao quer ficar e a mente manda a gente ir. Tem coisas que eu ainda nao aprendi. E, minha cara, existem coisas que levam uma vida inteira, e mesmo assim a gente nunca sabe.
Minha pequena crianca, essa pergunta foi dificil... Tem horas que o coracao quer ficar e a mente manda a gente ir. Tem coisas que eu ainda nao aprendi. E, minha cara, existem coisas que levam uma vida inteira, e mesmo assim a gente nunca sabe.
27 de janeiro de 2010
O melhor conselho que recebi
E me disse Amélie hoje de manhã cedinho: Nunca se explique.
Afinal, seus amigos não precisam de suas explicações, e seus inimigos nunca vão aceitá-la. Então, que diferença isso faz?
Como se diz por aí, nada é para sempre, "a melhor banda dos últimos tempos da última semana" já não toca mais no próximo segundo, sucesso e fracasso nunca duram initerruptamente, mas fazem na vida uma eterna ciranda, onde se alternam no papel principal.
Então semana que vem já não seremos o assunto do momento.
Afinal, seus amigos não precisam de suas explicações, e seus inimigos nunca vão aceitá-la. Então, que diferença isso faz?
Como se diz por aí, nada é para sempre, "a melhor banda dos últimos tempos da última semana" já não toca mais no próximo segundo, sucesso e fracasso nunca duram initerruptamente, mas fazem na vida uma eterna ciranda, onde se alternam no papel principal.
Então semana que vem já não seremos o assunto do momento.
2 de janeiro de 2010
Sem sono
Amélie, um coraçãozinho pequeno pode guardar muito medo às vezes, e isso é ruim, porque assim a dona do coraçãozinho quase não consegue dormir.
30 de novembro de 2009
Aniversário
-Sabe Amélie, é triste ficar velho.
-Sabe qual é a maior tristeza em ficar velho, pequena criança?
-Não, não sei.
-É passar da idade de poder chorar sem motivo, e levar a vida a ter que dar explicações lógicas a coisas que simplesmente não as têm, que apenas são o que são, indefiníveis.
É começar a juntar nossas emoções em ordem biográfica, cronológica, separando em dias, meses e anos o burburinho de sentimentos, como fotos num álbum de família.
É alcançar a idade de construir textos preocupado com métricas e rimas ricas para se dizer o que se sente, esquecendo os olhares e os colos onde podemos apenas nos recolher na hora que quisermos, sendo totalmente compreendidos em nossas angústias, anseios e amores.
É adquirir a capacidade de colecionar sentimentos inúteis, maquinações e premeditações, trocando nossa impulsividade infantil pelos medos, pelas táticas, pela racionalidade.
É aprender a viver histórias emprestadas, imitadas, vislubradas entre uma propaganda e um anúncio de TV.
É esquecer nossas verdades absolutas, nosso mundo tão pequeno e tão imenso por referências, análises e filosofias de outrem.
É parar de usar tão somente os pronomes pessoais do caso reto, se impondo os incômodos oblíquos.
É precisar de analgésicos e opióides para ser feliz na vida.
-Sabe qual é a maior tristeza em ficar velho, pequena criança?
-Não, não sei.
-É passar da idade de poder chorar sem motivo, e levar a vida a ter que dar explicações lógicas a coisas que simplesmente não as têm, que apenas são o que são, indefiníveis.
É começar a juntar nossas emoções em ordem biográfica, cronológica, separando em dias, meses e anos o burburinho de sentimentos, como fotos num álbum de família.
É alcançar a idade de construir textos preocupado com métricas e rimas ricas para se dizer o que se sente, esquecendo os olhares e os colos onde podemos apenas nos recolher na hora que quisermos, sendo totalmente compreendidos em nossas angústias, anseios e amores.
É adquirir a capacidade de colecionar sentimentos inúteis, maquinações e premeditações, trocando nossa impulsividade infantil pelos medos, pelas táticas, pela racionalidade.
É aprender a viver histórias emprestadas, imitadas, vislubradas entre uma propaganda e um anúncio de TV.
É esquecer nossas verdades absolutas, nosso mundo tão pequeno e tão imenso por referências, análises e filosofias de outrem.
É parar de usar tão somente os pronomes pessoais do caso reto, se impondo os incômodos oblíquos.
É precisar de analgésicos e opióides para ser feliz na vida.
13 de novembro de 2009
Eu acho...
-Sabe o que eu acho, Amélie?
-O quê?
-Que eu me apaixonei por ele... Porque ele é assim o cara mais legal do mundo, e quando ele ri me dá vontade de rir também, e eu ficaria ouvindo as histórias dele a noite toda, e quando ele fica com raiva de mim me dá vontade de chorar. Ah, e tipo, ele é o cara mais inteligente que eu conheci na vida também, e nem se esforça tanto assim pra isso.
-Oh, Deus. E agora?
-Agora? A gente senta e espera que passe. Esse negócio de realizar impossíveis é um pouco demais pra mim.
=D
-O quê?
-Que eu me apaixonei por ele... Porque ele é assim o cara mais legal do mundo, e quando ele ri me dá vontade de rir também, e eu ficaria ouvindo as histórias dele a noite toda, e quando ele fica com raiva de mim me dá vontade de chorar. Ah, e tipo, ele é o cara mais inteligente que eu conheci na vida também, e nem se esforça tanto assim pra isso.
-Oh, Deus. E agora?
-Agora? A gente senta e espera que passe. Esse negócio de realizar impossíveis é um pouco demais pra mim.
=D
28 de outubro de 2009
Envelhecer
- Amélie... Como é envelhecer??? Comecei a imaginar como vou ficar daqui a uns anos...
_ Flor, vai ser ao mesmo tempo tudo igual e tudo diferente.
- Adoro quando você me explica as coisas sem me explicar nada...
_Bem simples: você vai ser a mesma essência, mas sua cabeça vai ter o acúmulo da experiência de mais alguns anos que agora. Sua alma vai ter a mesma disposição, a mesma vontade de viver... Mas seu corpo não vai mais acompanhar o ritmo do seu espírito, mais cedo ou mais tarde.
E isso pode doer um pouco... Mas um espírito jovem é o que vai manter a vontade de levantar pra ver o sol todos os dias, mesmo que você nem precise mais levantar tão cedo como agora.
Todos os seres humanos vão ser iguais, terão os mesmo sonhos, as mesmas buscas. O mundo ainda vai continuar evoluindo. Novas invenções. Novos passeios pelo espaço. Mas seremos todos diferentes do que somos agora. Nossos bisnetos vão nos achar tão antiquados quanto achamos retrógada a década de 40. Algumas coisas vão voltar, algumas vão ser novidade, algumas vão embora para nunca mais. Algumas vão virar piada mesmo.
Enfim, minha flor. Tudo igual e tudo diferente.
Só tem um problema sério em envelhecer. Chegar lá sem ainda ter visto a vida.
Então pare de pensar como vai ser amanhã, e comece a fazer coisas hoje para ter do que lembrar mais tarde.
Porque quando todos os seus músculos, ossos, olhos e articulações falharem, são as suas recordações de agora que vão fazer suas tardes valerem a pena.
_ Flor, vai ser ao mesmo tempo tudo igual e tudo diferente.
- Adoro quando você me explica as coisas sem me explicar nada...
_Bem simples: você vai ser a mesma essência, mas sua cabeça vai ter o acúmulo da experiência de mais alguns anos que agora. Sua alma vai ter a mesma disposição, a mesma vontade de viver... Mas seu corpo não vai mais acompanhar o ritmo do seu espírito, mais cedo ou mais tarde.
E isso pode doer um pouco... Mas um espírito jovem é o que vai manter a vontade de levantar pra ver o sol todos os dias, mesmo que você nem precise mais levantar tão cedo como agora.
Todos os seres humanos vão ser iguais, terão os mesmo sonhos, as mesmas buscas. O mundo ainda vai continuar evoluindo. Novas invenções. Novos passeios pelo espaço. Mas seremos todos diferentes do que somos agora. Nossos bisnetos vão nos achar tão antiquados quanto achamos retrógada a década de 40. Algumas coisas vão voltar, algumas vão ser novidade, algumas vão embora para nunca mais. Algumas vão virar piada mesmo.
Enfim, minha flor. Tudo igual e tudo diferente.
Só tem um problema sério em envelhecer. Chegar lá sem ainda ter visto a vida.
Então pare de pensar como vai ser amanhã, e comece a fazer coisas hoje para ter do que lembrar mais tarde.
Porque quando todos os seus músculos, ossos, olhos e articulações falharem, são as suas recordações de agora que vão fazer suas tardes valerem a pena.
Parce que la vie nous prenons le cas que nous avons à raconter.
13 de outubro de 2009
Chorar
Amélie???
Você está aí?
[silêncio]
Justamente hoje que eu queria te contar... Justamente hoje você inventa de sumir.
Eu ia te contar, Amélie...
Contar que esqueci como é chorar.
Não que eu não queira, Amélie. Apenas não sei como.
Choro por dentro e não choro por fora. E fico juntando toda essaágua com sal que não tem por onde sair.
Ando com medo de me afogar. E ainda acabar a vida com esse gosto de sal.
A lágrima bem que podia ter gosto de chocolate...
Você está aí?
[silêncio]
Justamente hoje que eu queria te contar... Justamente hoje você inventa de sumir.
Eu ia te contar, Amélie...
Contar que esqueci como é chorar.
Não que eu não queira, Amélie. Apenas não sei como.
Choro por dentro e não choro por fora. E fico juntando toda essaágua com sal que não tem por onde sair.
Ando com medo de me afogar. E ainda acabar a vida com esse gosto de sal.
A lágrima bem que podia ter gosto de chocolate...
7 de outubro de 2009
Silêncio
-Está ouvindo, flor?
-Não ouço nada, Amélie...
-Preste atenção, moça. Se ficar fazendo toda essa bagunça não vai mesmo ouvir nada.
...
-Continuo sem ouvir nada, Amélie.
-Flor, presta atenção... Enquanto não conseguires domar teus ouvidos para ouvir o barulho do silêncio, tampouco conseguirás ouvir o que diz tão baixinho teu coração...
-Não ouço nada, Amélie...
-Preste atenção, moça. Se ficar fazendo toda essa bagunça não vai mesmo ouvir nada.
...
-Continuo sem ouvir nada, Amélie.
-Flor, presta atenção... Enquanto não conseguires domar teus ouvidos para ouvir o barulho do silêncio, tampouco conseguirás ouvir o que diz tão baixinho teu coração...
Ecoutez le silence, ma chère.
4 de outubro de 2009
Apresentação
Chegou a hora de mostrá-la ao mundo.
Seu nome?
É um nome doce. Doce como ela.
Ela é uma menina ainda. Pelo menos parece uma menina. Mas não sei quantos anos ela já viveu. Sei que tem muitas histórias para contar. E suas histórias são sempre boas de se ouvir.
Amélie quer dizer cúmplice. E é bem o que ela é de mim. Amélie sabe bem mais de mim do que eu mesma.
Alguns dizem que Amélie é meu eu-lírico. Outros dizem que é minha amiga imaginária.
Outros tantos dizem que é meu sintoma mais clássico de esquizofrenia.
Eu não sei quem é Amélie. Não sei de onde veio, nem como chegou aqui.
Não sei quanto tempo vai demorar. Sei que ela gosta de chegar nos fins de tarde, ou nas manhãs bem cedo. E me canta canções. E pinta quadros. E são sempre paisagens, lugares que nunca vi. Parece que Amélie já viu o mundo.
Ela me dita poemas, e muitos deles eu copio aqui. Ela me sussura histórias engraçadas. É bom ouvir Amélie falar sobre qualquer coisa. Porque ela sabe das coisas.
Amélie tem uns olhos que mexem com a gente também. Gosto dos olhos de Amélie. Olhos de olhar a alma. Não consigo me esconder dos olhos de Amélie.
Amélie me faz companhia, e me aconselha. É como se ela soubesse de tudo no mundo. Mas ela não me conta tudo. Ela me mostra os segredos do mundo devagarinho.
Vou descobrindo aos poucos o que ela sempre soube.
Por que ela tem tanto de mim, eu não sei.
Ela tem muito do que eu quero vir a ser também.
Ela se me mostra todos os dias. E começo meu dia com um sorriso e um bom dia. Que seja doce, ela me fala. Eu repito: Que seja doce o dia todo, todos os dias...
Esqueci de um detalhe importante: Amélie é francesa, assim como seu nome. Porque a parte mais doce de mim tinha mesmo que ser francesa.
Amélie talvez seja mesmo apenas parte de mim... Delírio do meu cérebro... Ausência de realidade.
Talvez...
Mas por mais delírio que possa ser, sei que é a voz dela que estou ouvindo agora, sonora e aguda, me ditando suavemente a mensagem do dia.
Seu nome?
Amélie.
É um nome doce. Doce como ela.
Ela é uma menina ainda. Pelo menos parece uma menina. Mas não sei quantos anos ela já viveu. Sei que tem muitas histórias para contar. E suas histórias são sempre boas de se ouvir.
Amélie quer dizer cúmplice. E é bem o que ela é de mim. Amélie sabe bem mais de mim do que eu mesma.
Alguns dizem que Amélie é meu eu-lírico. Outros dizem que é minha amiga imaginária.
Outros tantos dizem que é meu sintoma mais clássico de esquizofrenia.
Eu não sei quem é Amélie. Não sei de onde veio, nem como chegou aqui.
Não sei quanto tempo vai demorar. Sei que ela gosta de chegar nos fins de tarde, ou nas manhãs bem cedo. E me canta canções. E pinta quadros. E são sempre paisagens, lugares que nunca vi. Parece que Amélie já viu o mundo.
Ela me dita poemas, e muitos deles eu copio aqui. Ela me sussura histórias engraçadas. É bom ouvir Amélie falar sobre qualquer coisa. Porque ela sabe das coisas.
Amélie tem uns olhos que mexem com a gente também. Gosto dos olhos de Amélie. Olhos de olhar a alma. Não consigo me esconder dos olhos de Amélie.
Amélie me faz companhia, e me aconselha. É como se ela soubesse de tudo no mundo. Mas ela não me conta tudo. Ela me mostra os segredos do mundo devagarinho.
Vou descobrindo aos poucos o que ela sempre soube.
Talvez Amélie seja o que eu gostaria de ser.
Por que ela tem tanto de mim, eu não sei.
Ela tem muito do que eu quero vir a ser também.
Ela se me mostra todos os dias. E começo meu dia com um sorriso e um bom dia. Que seja doce, ela me fala. Eu repito: Que seja doce o dia todo, todos os dias...
Esqueci de um detalhe importante: Amélie é francesa, assim como seu nome. Porque a parte mais doce de mim tinha mesmo que ser francesa.
Amélie talvez seja mesmo apenas parte de mim... Delírio do meu cérebro... Ausência de realidade.
Talvez...
Mas por mais delírio que possa ser, sei que é a voz dela que estou ouvindo agora, sonora e aguda, me ditando suavemente a mensagem do dia.
C'est doux, c'est beau. Bonjour.
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